Diário de uma semana na clínica.
O que acontece entre uma quarta e uma sexta, na sala que dá para a Beira-Mar Norte.
Segunda.
A clínica em silêncio. É dia de revisar os planos das pacientes da semana — anotações da consulta anterior, evolução, próxima sessão. O caderno de rostos, que mantenho à mão, vai ganhando linhas novas. Cada nome, três a quatro frases. O suficiente para lembrar do que importa quando ela voltar.
Terça.
Reuniões. Conversa com a equipe sobre os casos da semana. Estudo. Esta semana, leio sobre PDRN em pele com rosácea — categoria que tenho cada vez mais querido entender. Fora da clínica, almoço com uma colega odontóloga, em parceria há dois anos. Falamos sobre uma paciente em comum: ela cuida da estrutura dental, eu da volumetria do terço inferior. As duas precisam.
Quarta, manhã.
Primeira consulta da semana. M. veio de Joinville. Saiu de lá às seis, chegou às nove. Tem 41 anos, fez Botox uma vez, há três. Quer entender o que pode fazer agora, sem exagero. Passa metade da consulta dizendo o que não quer. Anoto cada uma dessas frases — são elas que vão guiar o plano. Saímos com um cronograma de seis meses. A primeira sessão fica para junho.
Quarta, tarde.
L. é paciente recorrente. Faz manutenção a cada doze meses. Hoje é só um retoque pontual no contorno labial. Na conversa, conta que está em mudança de fase — nova cidade, nova rotina. Pergunto se faz sentido alterar alguma coisa no plano por causa disso. Ela pensa, diz que não. Faço o retoque em quinze minutos. Sai antes da hora. Volta dali a um ano.
Quinta.
Sem consulta. Dia de respirar. Vou cedo na orla. A vista da Beira-Mar Norte numa manhã clara é a melhor coisa que Florianópolis oferece — uma luz que organiza as ideias antes de qualquer reunião. Volto para a clínica no fim da tarde só para revisar o caso da sexta.
Sexta, manhã.
Primeira consulta da semana de uma paciente nova. C. veio de Itajaí, primeira harmonização da vida. Está nervosa, fala rápido, brinca para esconder. As duas horas e meia passam devagar — como precisam passar. No fim, ela sai sem ter aplicado nada. Plano agendado para julho. "Vou pensar com calma", diz. É a frase que mais me agrada ouvir nesse contexto.
Sexta, tarde.
Última consulta. Bioestimulador na linha mandibular de uma paciente de cinquenta anos que conheço há três. Trabalho conhecido. Música baixa. Ela conta sobre o filho que se mudou. Aplico Sculptra com a calma que esse produto pede. Saímos da clínica juntas; ela pega o carro, eu vou andando até a praça do bairro.
A Agronômica é um dos bairros mais silenciosos da ilha à noite. A clínica fica num andar que tem vista para um pedaço da baía. Em sextas como essa, depois da última paciente, a luz da janela ainda chega por mais uns vinte minutos antes de virar mar à noite.
É o tipo de lugar onde você consegue terminar uma semana de trabalho sem pressa. E é a única forma que conheço de fazer harmonização bem feita.
